Sobre o novo Recife e suas comparações à Miami

De uma cidade não aproveitamos suas sete ou setenta e sete maravilhas, mas as respostas que ela dá as nossas perguntas
Italo Calvino, Cidades Invisíveis

Por Bruno Abreu

Ao ler a defesa de alguns do projeto “Novo Recife”, chamou-me a atenção a insistência em compará-lo à Miami, lugar em que sirvo há dois anos. Sobretudo porque o que encanta os nossos turistas como exemplo de boa cidade é justamente o que faz os norte-americanos não a acharem tão perfeita assim. Daí, a Forbes ter considerado, em 2012, Miami uma cidade ruim para quem é classe média – renda anual entre 25.000 e 75.000 dólares anuais - morar (http://www.forbes.com/sites/kurtbadenhausen/2012/02/02/americas-most-miserable-cities/). Essa discrepância de opinião é que me faz lembrar muito Caetano e o seu “porque Narciso acha feio o que não é espelho”. Provavelmente, seja impossível comparar Miami ao Recife. São cidades com histórias, graus de desenvolvimento econômico e culturas urbanas bastante diversas.

Assim, projetos idênticos nas duas cidades terão significados muito distintos. Veja o caso do Bayfront Park da foto, projeto paisagístico de Burle Max. É ou não é o que querem fazer no Novo Recife? Um parque à beira da baía de Biscayne, no centro da cidade, à margem de uma avenida, cercado de prédios de luxo, hotéis e escritórios de alto nível e vizinha ao porto de Miami. Para completar, tornou-se, ainda, local de estada de diversos “homeless”. Aqui, tal parque é um dos pontos vivos do centro da cidade. Basta entrar no site do local para ver a programação.  Ao seu lado foi construída a American Airlines Arena, a casa do Miami Heat, e, pouco mais adiante, o Perez Museum, dedicado à arte latino-americana, cultura fundamental para se entender Miami. Próximo, ainda, está Wynwood, o fantástico bairro artístico e outro grande exemplo de reutilização de uma área outrora em vias de abandono (http://www.wynwoodmiami.com/about.php). Conheço poucos brasileiros que mencionem Wynwood quando de suas visitas à cidade, mais interessados, talvez, nas compras em outlets a 100 quilômetros daqui.

Recife, por outro lado, foi construída para excluir - como quase toda cidade brasileira. Poder-se-ia dizer, não sem certa maldade, que há, no Recife, 300.000 habitantes e dois milhões de excluídos. O mesmo parque, por isso, teria usos bem diferente dos daqui. Não me espantaria que, para frequentá-lo, os moradores das “modernas” novas torres recifenses exigiriam que os outros dois milhões nele não entrassem, apareceria imediatamente uma gradezinha, uma vigilância privada e todos os demais equipamentos da exclusão tão conhecidos e que, quando morava aí, eram empregados, por exemplo, no Parque da Jaqueira. Ainda, caso tais recursos urbanos fossem negados pela prefeitura, não duvide que o parque seria abandonado e o espaço se degradaria. Não há grades, a não ser nos grandes eventos, a impedir o acesso de quem quer que seja ao Bayfront Park, daí ser ele ponto dos “homeless” que a ninguém parecem incomodar.

O Bayfront é apenas um exemplo. Poderia citar outros, como o Miami Circle (http://en.wikipedia.org/wiki/Miami_Circle), onde, no meio da construção de um grande condomínio, descobriu-se um cemitério indígena. Resultado: audiência pública, grupo de pressão e o prédio, ao ser construído, teve que se adequar ao achado arqueológico, hoje um parque. Detalhe importante: não há muros a separar o parque e o conjunto de prédios. Outro caso, desta vez em Miami Beach, deu-se quando a Apple quis expandir sua sempre lotada loja da Lincoln Road. O Historic Preservation Board (HPB) daquela cidade opôs-se, pois o projeto teria o potencial de descaracterizar a área, o maior conjunto de prédios art déco dos EUA. Sem desejo de acomodar-se às exigências do Board, a Apple desistiu do projeto (http://www.ifoapplestore.com/2011/06/19/city-objects-to-plans-for-larger-store/). Por fim, um caso ainda em andamento, também nas escavações para um novo edifício, deparou-se com outro achado indígena (http://news.nationalgeographic.com/news/2014/03/140312-archeology-miami-preservation-tequesta-indians-hotel-florida/). A discussão entre a prefeitura, os moradores e os donos do empreendimento ainda não terminaram. Faltam audiências públicas – aqui muito sérias, cuja convocações são anunciadas nas rádios e coladas nos postes. Deve-se chegar a uma solução de compromisso, talvez um piso de vidro; por enquanto, apenas os arqueólogos da Universidade de Miami estão no local.

Por isso, a grande questão, do ponto de vista deste exilado que vos escreve, não é o projeto arquitetônico ou urbanístico; ou sua defesa com idéias implantadas em outros burgos. V. S. Naipaul, ao refletir sobre Chandigarh, a cidade mais bem projetada da Índia, aquela que deveria ser a Brasília deles, feita por ninguém menos que Le Corbusier, escreveu que: “India had encouraged yet another outsider to build a monument to himself” e que a cidade  nada tinha que se aproveitasse. Da mesma maneira, não adianta tentar macaquear outras metrópoles na ânsia de ser moderno. Querendo ser Miami, ou, para hábitos mais afetados, Paris ou Nova York ou Londres, acaba-se a Chandigarh que Naipaul viu. 

image